A importância do estudo confessional


Por José Eduardo

As "Confissões de Fé" elaboradas desde a reforma protestante bem como os "Credos" dos primeiros séculos são uma forma sistemática de ensinar as doutrinas bíblicas e como tal merecem atenção. Não por serem as Escrituras, mas por nos fornecer o ensino sobre elas. O Credo Niceno datado de 325 d.C tem em seu primeiro artigo uma declaração de fé no único Deus, bem como sendo o criador de todas as coisas - "Creio em um só Deus, Pai Todo -Poderosos, criador das coisas visíveis e invisíveis". Essa declaração ensina o que dizem as Escrituras no primeiro mandamento (Ex 20:3) e da sua revelação geral a todos os homens (Rm 1:19-20).

Com o longo do tempo as Declarações, Confissões e também os Catecismos foram tomando proporções maiores, elaborando mais artigos de acordo com o desenvolvimento do conhecimento da igreja, mas também com as dificuldades de compressão de determinados pontos doutrinários. Este foi o caso da criação do Sínodo de Dort, na Holanda entre 1618 e 1619. Na ocasião e um ano inteiro teólogos da igreja da Holanda dividiam opiniões a cerca da sistematização da soteriologia. Discipulos de Jacob Arminius, após sua morte, propuseram a igreja uma análise de cinco artigos que elaboraram que fora conhecido como Remonstância, que se opunha a soteriologia calvinista.  Durante o ano de debates, a Igreja da Holanda abriu espaço para que todos discutisses os pontos igualitariamente, até o veredito em favor calvinismo, onde, daí temos hoje o documento de fé conhecido como os "Cânones de Dort".

A Igreja da Holanda nos dá uma grande lição e encorajamento de debater, discutir, questionar e antes de tudo, estudar estes documentos de fé. Os Batistas, por exemplo precisaram se organizar depois das duas Declarações de Fé nada ortodoxas de John Smyth e Tomás Helwys. Apesar de aclamados como pioneiros entre os Batistas, o primeiro negou se auto batizou o que não tem nenhum precedente e respaldo nas Escrituras e negou o pecado original e inclinou-se ao pelagianismo. O segundo, em busca de reconhecimento de sua congregação de ingleses exilados na Holanda escreveu uma declaração com mais preocupação de ser aceito entre os Menonitas e negou a perseverança dos santos, afirmado que o crente perde sua salvação. Após isso, Batistas organizados se opunham a Smyth e Helwys e consolidam uma denominação com identidade própria e mesmo com a divisão entre os Batistas Gerais (arminianos) os batistas Particulares (calvinistas), ambos se estabeleceram na Inglaterra de forma confessional, onde qualquer que os quisesse conhecer poderiam consultar seus distintivos de Fé. E quesito estudo e auto avaliação os Batistas foram proeminentes. Na Inglaterra eles fizeram exames permanentes de suas Confissões de 1644, 1647, 1689 e O Catecismo de Benjamim Keach de 1693 além do Catecismo Puritano com Provas de C.H. Spurgeon de 1855. Na América temos as mais conhecidas Declarações de Fé Batistas, a da Filadélfia de 1742, de New Hampshire 1833 (que já foi a Declaração de Fé dos Batistas Brasileiros entre 1916 a 1986) e as Mensagens de Fé dos Batistas do Sul de 1925, 1963 e 2000.

Todas estas Declarações têm algo em comum além do calvinismo, elas são uma realização de exames, de estudos preocupados com a melhor forma de transmitir a mensagem do evangelho e ensinar a igreja. Mas o importante a ser destacado, seja nos Credos, Confissões ou até mesmo nos Catecismos é que eles expressam a fé em sua mais pura defesa. Poderíamos encarar estes distintivos como "muralhas da fé", mas muralhas que impedem as pessoas de se achegarem a fé por traz delas, mas muralhas que justamente mantém a doutrina e as pessoas guardadas, envolvidas e defendidas.

A autoridade da Bíblia



O que é princípio da autoridade da Bíblia? Significa que apenas as Escrituras, que são os registros escritos da auto-revelação de Deus aos homens, possuem autoridade suficiente para guiar o indivíduo na sua crença e no seu comportamento. Justo Anderson afirma que “as igrejas batistas consideram a Bíblia como a fonte de autoridade, especialmente o Novo Testamento, como o registro da vida, o exemplo e os mandamentos de Jesus Cristo”.[15] Anderson ainda argumenta que a autoridade da Bíblia, principalmente a do Novo Testamento, se relaciona com o princípio do senhorio de Jesus Cristo, porque “a autoridade do Novo Testamento se deriva do Senhor do Novo Testamento. Em outras palavras, a palavra escrita deriva sua vitalidade da Palavra vivente”.[16]

Por esse motivo nós, batistas, entendemos que nossas doutrinas e práticas devem estar subordinadas ao Novo Testamento. Com isto em mente, James Giles escreveu: “O que alguémconsidera como autoritativo em religião e prática determinará seu comportamento”.[17] Por isso, quando o muçulmano, no mês sagrado de Ramadã, jejua desde o nascer ao pôr-do-sol, inclusive sem fumar e abstendo-se de relação sexual, faz guiado pelo Alcorão, que para ele é a autoridade máxima.

Neste uso, justificam-se plenamente as diferenças acentuadas entre o islamismo e o cristianismo. Para o islamita, o Alcorão é autoritativo; para o cristão, a Bíblia é sua regra de fé e prática. Agora, como entender as várias igrejas com o nome de cristãs mas com doutrinas e práticas tão diferentes, senão até contrárias?

Vejamos três exemplos de igrejas que divergem de doutrinas e práticas batistas.

O primeiro exemplo é o da igreja católica romana com o seu papa infalível, veneração (na realidade culto) a Maria e aos santos, a oração pelos mortos em um suposto purgatório; a salvação pelas obras etc. Quanta distância das doutrinas e práticas bíblicas!

Mesmo assim o catecismo da igreja católica romana diz: “Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força, pois nela não acolhe somente uma palavra humana, mas o que é realmente: a Palavra de Deus”. Estas afirmações do catecismo estão corretas, merecendo o nosso amém. Agora, como conciliar os desvios de crenças e práticas católicas com os ensinos das Escrituras? A resposta é uma só: o catolicismo não tem apenas a Bíblia, mas também crê que “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só sagrado depósito da Palavra de Deus confiado à igreja”.[18] Logo, o que não tem base bíblica é justificado pela tradição, que é o conjunto de ensinamentos e práticas sem o apoio das Escrituras, que foram acrescentados com o passar do tempo.

O segundo exemplo são as igrejas protestantes pedobatistas, isto é, as que batizam crianças recém-nascidas, e efetivam o batismo na forma de aspersão. É o caso das igrejas luterana, anglicana ou episcopal, presbiteriana e metodista. Embora sejam igrejas derivadas direta ou indiretamente da Reforma do século XVI que proclamou a Bíblia como única regra de fé e prática, não questionaram alguns conceitos e práticas à luz do Novo Testamento. Por isso José dos Reis Pereira escreveu: “Porque manteve o batismo infantil além de outras doutrinas e práticas oriundas do romanismo ou nele inspiradas é que dizemos que a Reforma do século XVI não foi completa. Lutero e Zwuínglio, bem como Calvino e os anglicanos mais tarde, não tiveram fôlego moral e espiritual para percorrer todo o caminho de volta ao cristianismo do 1° século. Detiveram-se antes de terminar a jornada”.[19]

O terceiro exemplo são as igrejas neopentecostais que têm difundido ensinos bastante estranhos à Bíblia e ao protestantismo histórico. Basta mencionar apenas alguns:

1) Estar bem com Deus significa ter saúde física e prosperidade financeira;
2) O crente deve determinar a bênção e não orar de acordo com a vontade de Deus;
3) Cura interior mediante o uso de hipnose e regressão que pode chegar à fase embrionária e “liberar perdão às pessoas envolvidas (aquelas dos momentos difíceis, amargos e traumatizantes) em cada fase e até mesmo a Deus”[20];
4) Quebra de maldição hereditária vinda de antepassados.

O mais curioso é que todos os envolvidos nos tais “encontros” propagam-nos dizendo: “Tudo que foi ensinado e pregado lá está dentro da Palavra”, querendo dizer que tem base bíblica. Entretanto a autoridade da Bíblia fica anulada pela aceitação de outras “autoridades normativas” como pretensas visões e revelações de líderes. Infelizmente, se esquecem das palavras de Paulo orientando a Timóteo para que admoestasse “a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que antes promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé” (1 Tm 1:3).

Finalizo este tópico dizendo que não adianta dizer que a Bíblia é autoridade se ela não norteia nossa fé e nosso agir.

É preciso entender que “as Escrituras revelam a mente de Cristo e ensinam o significado do seu domínio. Na sua singular e una revelação da vontade divina para a humanidade, a Bíblia é a autoridade final que atrai as pessoas a Cristo e as guia em todas as questões de fé cristã e dever moral. O indivíduo tem que aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração, orientando a vida debaixo de sua disciplina e instrução”.[21]
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[15] ANDERSON, Justo C. Historia de los bautistas – suas bases e princípios. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1978. Tomo I.
[16] Ibid.
[17] GILES, James. Estos creemos los bautistas. Casa Bautista de Publicaciones, 1977, p. 18.
[18] Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a revelação divina In: Compêndio do Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 121.
[19] PEREIRA, J. Reis. Breve história dos batistas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1979, p. 50.
[20] AMAZONAS, Arão, (Coordenador). Manual de realização do encontro. Manaus: Semente de Vida Produções, p. 98.
[21] Princípios batistas.

Nota: Este é um extrato de Princípios e doutrinas batistas por Roberto do Amaral Silva, pg. 22-24

Soli Deo Gloria, dele são todas as coisas

Imagem: Christian Hilley


O grande ápice

Tudo redunda especificamente em glória a Deus. Enquanto as importantes descobertas renascentistas e iluministas surgiam, um ego invadia os homens ao mesmo tempo. De um outro lado, além do empobrecimento econômico e intelectual ao redor dessa consciência eclesiástica vendida, existia o pior dos empobrecimentos, o da alma, sem o conhecimento de Deus. A reforma insistiu em reproduzir em cada região alcançada Catecismos onde a primeira pergunta era:

"Qual é o fim supremo e principal do homem?".  A resposta é: O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. (Rm 11:36; 1 Co 10:31; Sl 73:24-26; Jo 17:22-24)[1]

Com as quatro afirmações básicas, Sola Scriptura, Sola Fide, Solus Christus, Sola Gratia como alicerce de todo envolvimento com a transformação humana, o homem estava de fato retornando a glorificar a Deus na sua profissão de fé. Então, a quinta afirmação básica: "Soli Deo Gloria" torna-se concreta, porque ela afirma que o homem pecador, enfim regenerado pode adorar somente a Deus. Estes têm sido os pilares da fé dos evangélicos e a rejeição a qualquer desses pontos é o mesmo que por em risco a firmeza da nossa doutrina.

As Escrituras afirmam que todos os 4 primeiros artigos dos 5 Solas não podem ser possíveis sem Deus. Em outras palavras, é Deus quem "assina" todos os termos de fé que temos defendido.

1. Sola Fide - A Fé que nos justifica não vem de nós más é dada por Deus - "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;" (Efésios 2:8);
2. Sola Scriptura - As Escrituras estão desde as tábuas da Lei dadas a Moisés - "As tábuas eram obra de Deus; também a escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas tábuas." (Êxodo 32:16), até o dia em que Jesus ordenou a João que escrevesse as revelações que lhe fora dada - "O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas..." (Apocalipse 1:11);
3. Solus Christus - Jesus Cristo, o eleito de Deus é o único e suficiente na nossa redenção, nos purificando de todo mal como é nossa única fonte de intercessão junto ao próprio Deus - "Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem," (1 Timóteo 2:5);
4. Sola Gratia - Esse favor de Deus não é conhecido só na redenção, mas em toda a sua providência em todas as coisas - "Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos." (Salmos 90:17).

A palavra "glória" em hebraico é "khabod" e significa pesada. Ele transmite a ideia de que Deus, em um mundo de ídolos de penas, é um superpesado. Ele é a realidade mais substancial, mais duradoura e mais permanente que existe.

O testemunho impressionante das escrituras é que Deus faz tudo por Sua glória. Podemos não entender completamente tudo o que gostaríamos sobre o mal e o sofrimento. E podemos nos esforçar para entender os propósitos de Deus às vezes. Mas uma coisa que podemos saber é que Deus é supremamente motivado e faz tudo por Sua própria glória. Como cada sola, essa é a bela centralidade de Deus em Deus.[2]
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[1]Pergunta número 1 do Catecismo Maior de Westminster
[2]Trecho do artigo "Soli Deo Gloria" - http://www.trinityws.com/2017/10/25/soli-deo-gloria/

Sola Gratia, o favor de Deus pelo pecador

Imagem: Christian Hilley

Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,” - Efésios 2:4

Aqui encontramos dois atributos de Deus que em conformidade cooperam para que o pecador seja alcançado: Misericórdia e Amor. Esta misericórdia, por exemplo é a causa de não sermos consumidos  (Lm 3.22) e motivos para tal consumação existe, pois nossos pecados ofendem a santidade de Deus. Em contra partida a sua misericórdia se opõe a nossa depravação interior, se opõe a mente que arquiteta o mal e que é inconstante. Outros termos a serem empregados a misericórdia são; compaixão e paciência. Somente um Deus compassivo e longânimo é capaz de agir assim. Deus faz isto superficialmente, mas como Deus, sabe todo o conteúdo do meu ser (Sl 139.1) então, conhecendo toda miséria contida no coração humano se compadece. Não faz isto porque é fraco emocionalmente, entra em conflito consigo, não sabe o que fazer e que na dúvida decide nos poupar. Não, sua paciência ter por objetivo mostrar o seu amor.

O fruto da paciência de Deus portanto é o seu amor. Em toda apresentação doutrinária, seja as igrejas ou a seus discipulos, Paulo não deixa de ressaltar a redenção, a reconciliação, e em Efésios não é diferente. Lembrando do versículo 1 deste mês capítulo, Paulo diz que o pecador é vivificado; isto é, é nascido novamente e isso só poder ser possível na pessoa de Cristo. Portanto, Paulo não está falando de outra a coisa, de uma outra forma de amar. Amor é entrega, é operosidade redentiva. Deus em sua compaixão tem ,o propósito de mostrar o Cristo morto para que os pecadores vejam e se arrependam.

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),” (Efésios 2:5)

Como prova de que este amor refere-se a morte vicária de Cristo, Paulo anexa a mesma expressão do versículo 1: estando nós mortos em nossos delitos, para confirmar que a misericórdia alcança o homem perdido e que a consequência desta misericórdia é a pessoa de Cristo – nos deu vida juntamente com Cristo. Outro termo é anexado a toda explicação de Paulo sobre é a bondade de Deus – pela graça sois salvos. Se da parte de Deus temos a paciência e compaixão que dará fruto ao ato de amor, de Cristo vem o desejo de fazer a vontade de Deus e a isto chamamos graça ou favor. Este favor é aquilo que eu não poderia fazer por mim mesmo, temos corretamente chamado este favor de favor imerecido, pois segundo Rm 3.20-23, ninguém é declarado justificado de seus pecados diante de Deus, e estes pecados tornam o homem sem merecimento algum. Mas, com sua compaixão, Deus, o Pai nos concede o favor de sermos salvos por meio de Cristo.

Em outras palavras, é Deus quem intervém . E isto tem um efeito permanente em nós. O salmista lembra que: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida” (Salmo 23:6). De onde vem esta convicção de que certamente bondade e misericórdia o seguirão? Ela vem do fato de saber que sendo o Senhor o seu pasto (Salmo 23:1) ele não descansa em guardar suas ovelhas. Quem diz estas palavras do Salmo é alguém que sabe bem o ofício do pastor. A graça divina não está estacionada na redenção, mas está ativamente aplicada até o dia da volta de Jesus. A graça é o trabalho de Deus de nos assegurar, mas também de nos fazer ver que carecemos de bondade todos os dias de nossas frágeis vidas.

Graça especial e irresistível

Porque temos insistido de que a graça é irresistível se na nossas experiência e observação vemos tantas pessoas que não se renderam? Outro termo já foi usado para falar do poder da graça, também a conhecemos como graça vencedora. Isto faz uma alusão ao embate do homem com os mistérios espirituais e que acabam sendo vencidos. Mas em uma análise mais ampla, a graça irresistível é sobretudo especial. Na revelação do próprio Cristo é que saímos de sob a graça comum e chegamos a esta graça especial.

Todos igualmente são expostos a uma graça comum onde o sol, a chuva, a sombra e até a algum sentido de religião são experimentados, mas Cristo precisa ser revelado, pois nada disto basta para a redenção. E Cristo é revelado àqueles a quem Deus elegeu antes da fundação do mundo (Efésios 1:4-5). Então, a graça especial é eficaz porque ela tem alvo certo, àqueles que Deus conheceu de antemão.

Solus Christus, nele estamos satisfeitos

Imagem: Christian Hilley

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5)

Quando dizemos que estamos satisfeitos em Cristo isto significa que de antemão estamos rejeitando qualquer outro meio de acesso a Deus. Para os cristãos de fé reformada, qualquer coisa que fique entre nós e Deus que não seja Jesus Cristo é um brutal pecado. Isto não significa que a tradição reformada ensine que possamos nos deleitar com artes plásticas, música, lazer ou que no campo da religião ele não possa se dedicar a teologia, aos princípios reguladores e o exame dos tratados confessionais. A diferença é que para a tradição reformada a boa consciência revela que Jesus, e somente ele dará plena satisfação quando nada mais puder ser deleitado.

O motivo para esta devoção de forma tão confessional está no fato de Cristo ter morrido, sendo punido por causa dos nossos pecados. Por isso que a palavra impiedade é tão elucidada nos sermões reformados. O ímpio é aquele que não recebeu o sangue de Cristo e está sob a ira de Deus (Romanos 1:18). Mas, a morte de Cristo na cruz aplaca esta ira.

Cristo é o Senhor

Esta é uma verdade que deve ser anunciada e vivida por aqueles que professam a Cristo como Senhor. Mas, se Cristo é suficiente para você e isto é algo de que você está convicto a pergunta que resta fazer é, Cristo é plenamente suficiente para mim. Se temos a Cristo como Senhor da vida eterna (Jo 14.6), ele também deve ser Senhor da vida terrena. Quando Paulo nos diz: ''portanto, vede prudentemente como andais ... remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Ef 5.15-16) temos que concluir que aqui reside a instrução para uma vida terrena, pois são os dias na terra que são maus.

Não é uma tarefa fácil andar conforme Cristo, mas não há outra solução, é Cristo ou Cristo. Também devemos estar consolados com o fato de que não depende dos nossos métodos ter uma vida debaixo do modelo de Cristo, mas devemos nos preocupar em seguir os conselhos de Deus deixados nas Escrituras para darmos razão de vivermos sob o modelo de Cristo. O Salmo 1 nos auxilia a entender o progresso de nossa vida terrena.

O salmista diz no versículo que somos bem-aventurados quando (1)não andamos no conselho dos ímpios (2)não nos detemos no caminho dos pecadores (3)não nos assentamos na roda dos escarnecedores. Acompanhado a isto, no versículo 2, nos é apresentado onde devemos nos aconselhar, nos deter e assentar - na LEI DO SENHOR. Jesus ao abordar os fariseus, como registrado em Jo 5.39, diz que as Escrituras testificam dele. Portanto é impossível caracterizar o cristianismo fora do Cristo apresentado nas Escrituras. Você pode buscar na cultura um modelo que produza nas vistas dos homens algum efeito parecido com o modelo de Cristo, mas será inútil. Devemos olhar firmes para o Autor e consumador da nossa fé, Jesus Cristo, o único modelo legítimo a ser seguido (Hb 12.2).

Sola Fide, o justo viverá pela fé

Imagem: Christian Hilley

"O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade.” ( Habacuque 2:4)

“Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’". (Romanos 1:17)

“Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que crêem e são salvos.” ( Hebreus 10:38-39)

A teologia reformada da justificação pela fé eclode em meio ao duro processo de reforma da igreja em 1517. Ao questionar o que vê em Roma, Martinho Lutero estava questionando o porque a fé tão exclusiva para a salvação estava ofuscada no meio de tantos “adornos humanos” e de falsa espiritualidade. No meio de crânios e osso de supostos cristãos e outros objetos de devoção da Igreja de Roma, poderiam ser levantadas algumas perguntas, tais como: “Por acaso o crânio de João Batista concede mais graça ao pecador do que o próprio doador?” “Os milhares de pedaços da cruz que foi usada para pendurar o salvador tinha alguma autoridade misteriosa junto ao Cristo?” Os problemas em Roma eram tão absurdos que negavam um outro fundamento óbvio:

“Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus,” (1 Timóteo 2:5)

Mediador em certo sentido é estar entre duas partes. Aqui, as partes em questão é Deus e o homem, e Cristo está no meio, não só posicionado, mas trabalhando para que este homem pecador possa finalmente se reconciliar com Deus. Colocando qualquer coisa como meio de graça é uma ofensa a Deus e sua obra de justificação em Cristo. Por este e outros motivos que até o século 16 o mundo vivia em “período de trevas” ou “idade das trevas”. O misticismo adotado pela Igreja Romana tinha relação com o período econômico da Europa, as “trevas” era um tempo de obscuridade econômica e social e a igreja se envolveu em trevas espirituais, na obscuridade sobre a verdadeira fé cristã.

Sola Fide e o retorno às verdades antigas

Sola Fide torna-se, então, um dos primeiros postulados teológicos da fé reformada e evangélica. Na sua afirmação dialética Sola Fide representava a afirmação Bíblica sobre a salvação dos homens em protesto a venda das indulgências como uma das fórmulas adotadas pela Igreja de Roma. Mas é no seu sentido teológico e espiritual que Sola Fide ganha mais espaço. Esta é base do nossa identidade cristã e evangélica. Não queremos que nada esteja “adornando” nossa relação com Deus a não ser a fé em Cristo.

A mensagem de redenção

Não se enganem os que se acham espertos, pois neste século 21 algumas coisas estão bem parecidas com o século 16. Ministros andam desafiando a fé alheia, manipulando e destruindo toda boa consciência cristã sobre sua piedade. A fé não é só uma declaração de crença, mas de crença e fidelidade. A igreja não pode se deixar manipular por estatísticas ou pela simpatia de pessoas que estão confusas sobre o que é a fé cristã, e gostam de participar de nossas reuniões. Lemos alguns textos correlacionados e veremos o que eles têm a dizer sobre fé genuína e conversão.

A mensagem de que o ímpio está sob forte engano

"O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fé" - Habacuque 2:4

Habacuque apresenta um contraste básico. O ímpio é aquele que não foi lavado no sangue do cordeiro e mesmo aqui numa mensagem veterotestamentária, o lavar do sangue espiritual vinha pela observância das leis cerimoniais dados por Deus a Moisés e que elas apontavam para o Deus redentor. O ímpio é aquele que está avesso a se submeter a esta lavagem da alma pelo sangue. Concluindo sobre quem é o ímpio Habacuque diz que ele não tem desejos bons. Em outras palavras, seus desejos são enganosos a eles mesmo. Agora, com relação aos justos Habacuque usa a frase “mas o justo viverá pela fé”. Quando Habacuque diz que a fé faz o justo viver (e viver aqui é nascer de Deus) o contrário também é verdadeiro, o ímpio irá perecer pela incredulidade ou seus desejos e pensamentos enganosos o que é espiritualmente, sobre Deus e seus mandamentos.

A mensagem de que a palavra não deixa nenhum homem enganado

"Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’" (Romanos 1:17)

Olhemos para o exemplo de Sodoma e Gomorra. Os pecados deles eram especificamente a violação dos direitos civis com atos de barbaridade contra a vida humana, cometendo todo tipo de violência e impureza sexual. Deus sendo justo não os poupou. Isto mesmo, o Apóstolo Pedro diz que a ira de Deus se aplicou contra Sodoma e Gomorra e que isto era um exemplo do destino dos que andam na impiedade:

"Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios," (2 Pedro 2:6)

A mensagem de que a fé marca nossa existência espiritual em Cristo

"Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que creem e são salvos". (Hebreus 10:38-39)

O justo vive, ou em outras palavras, antes ele estava morto espiritualmente nos seus delitos e pecado, mas Deus fez reviver espiritualmente (Efésios 2:1). Qualquer que seja a circunstância em que eu volte a lavagem como a porca lavada isto é o mesmo que envergonhar a Cristo. Esta é a mais pura verdade já dita pelo Apóstolo Pedro:

Se, tendo escapado das contaminações do mundo por meio do conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, encontram-se novamente nelas enredados e por elas dominados, estão em pior estado do que no princípio. Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho da justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem as costas para o santo mandamento que lhes foi transmitido. Confirma-se neles que é verdadeiro o provérbio: 'O cão voltou ao seu vômito’ e ainda: ‘A porca lavada voltou a revolver-se na lama’ (2 Pedro 2:20-22)

As palavras de Pedro nos parecem rudes, desagradáveis e nada politicamente corretas? Pedro precisou escrever com esta clareza para que todos entendam que o pecado é um lixo, um esgoto espiritual onde eu me lambuzei. Não existem palavras brandas para esta situação, pois a Fé é o alimento da santidade e comunhão com Deus.

O que Martinho Lutero viu não foi algo semelhante ao que Pedro disse? A fé não é um momento da vida, mas uma marca da existência. Jesus também profere palavras pesadas ao dizer:

“Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’” (Mateus 7:23)

“E disse: ‘Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus.’ (Mateus 18:3)

Jesus em seu amor quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade e a fé salvadora, mas em sua justiça será implacável. Temos que lidar com este paradoxo, ou ainda melhor, sermos livres dele e a única forma é a fé, mas a fé condicionada a rendição e obediência.

Já comemoramos os 500 anos da Reforma Protestante e o lema Sola Fide permanece vivo, mesmo em novos tempos de obscuridade. Para a manutenção do nosso distintivo confessional em 1994, 120 Ministros do Evangelho se reuniram em Cambridge, EUA, para formular os distintivos confessionais e fundamentais da Fé Reformada e assim definiram o que vem a ser Sola Fide:

Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus

“Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido.” (1 Pedro 5:6)

Sola Scriptura - Nossa regra de fé e prática

imagem: Christian Hilley

“pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente  (1 Pe 2:3)

Para a Reforma Protestante não restou dúvida sobre o papel da Palavra de Deus. Este texto inclusive desmente a ideia de que a teologia reformada é meramente racionalista. Quando defendemos Sola Scriptura (Somente as Escrituras), estamos assegurando o papel espiritual e transformador que as Escrituras exercem sobre os corações humanos. Então, é necessário que o homem seja transformado espiritualmente. É isto que o apóstolo Pedro diz e é isto que reafirmamos. Sola Scriptura é o que Cristo, os apóstolos e nós ensinamos.

O experiencialismo e as Escrituras

Minhas experiências de fé estão sujeitas as averiguações bíblicas, minhas convicções e interpretações também estão sujeitas ao que as Escrituras dizem. Jesus deixou isto claro aos fariseus - “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39). Toda a fé manifestada interiormente e historicamente nos judeus estava no fato das Escrituras a todo tempo apontar para Jesus Cristo (Hb 1:1) . As palavras de Jesus não são subjetivas, Jesus não está usando uma parábola nem dando um exemplo. Jesus usou estas palavras com o foco em deixar as Escrituras como evidência, não só para o seu tempo, mas para sempre. Todas as vezes que lemos as Escrituras estamos indo em um encontro com Cristo.

É importante ressaltarmos aqui que não colocamos as Escrituras acima de Cristo. Uma vez que Ele é o "Verbo" (Jo 1:1), as Escrituras são as informações necessárias sobre a pessoas de Jesus, para conhecimento e fé (Jo 20:30-31). 

A devida importância dada a Palavra de Deus

Lendo o Salmo 119 na Versão Almeida Revisada e Atualizada vemos 33 ocorrências do termo "palavra", das 33 ocorrências 32 vezes "palavra" é aquilo que soa diretamente de Deus e o salmista contempla as instruções, se curva a necessidade de ouvi-las e firma compromissos com ela pois reconhece as palavras de Deus como o melhor fiador para a vida. Aqui pode haver uma dúvida; afinal, Davi leu as palavras ou as ouviu? É importante termos em mente que no processo de elaboração dos escritos do Antigo Testamento. O "Assim diz o Senhor" é um intercâmbio entre aquilo que estava para ser dito e aquilo que seria registrado, então o salmista não estava fazendo distinção entre o método oral ou de escrita, ao seu lado havia inicialmente Samuel e depois Natã, profetas que tinham o recurso das leis mosaicas e a transmissão oral.

A ressurgência da Palavra na Reforma do século 16

Nada esteve mais em evidência do que a Palavra de Deus na mente dos reformadores. Mas, a agência de Missões Portas Abertas permanentemente divulga as dificuldades que cristãos em países extremamente fechados enfrentam. O número de Bíblias é restrito, em alguns casos a editoração é proibida e em outros nem é permitida a entrada dela. Este não o mesmo caso do período da Reforma, não existia um repúdio a Bíblia, mas um monopólio sobre ela. A Bíblia era um objeto de uso restrito ao magistério e o que restava ao povo era meramente ouvir poucas palavras dela em sermões, sem qualquer chance de averiguação.

No período apostólico, apesar dos Escritos totais serem recentes, temos ocorrências de que o acesso a Palavra de Deus não era restrita. O eunuco etíope lia Isaías (Atos 8) e os Bereanos consultavam seus rolos para verificar se o que ouviam era verdade (Atos 17). O sentimento dos reformadores estava neste ponto em que historicamente as Escrituras não eram banidas da vida comum e vê-la como objeto de luxo e uso restrito era um erro. Como os homens poderiam conhecer algo sobre uma fé autêntica sem acesso às Escrituras? Jesus disse a João que escrevesse as coisas que viu, que são e que haveriam de acontecer (Ap 1:19), pois no fim isso era para felicidade dos que leriam (Ap 1:3). Saber sobre as coisas que trariam uma esperança escatológica é algo formidável, este é o objetivo destas palavras de Jesus. Então, como as Escrituras poderiam ficar tão restritas? Para os reformadores isto jamais deveria acontecer.

A pergunta de Filipe ao eunuco - “Então perguntou-lhe: 'Entendes o que lês?” (At 8:29) mostra que a Palavra de Deus acessível é um elo de interlocução entre Deus e o homem, assim como entre os homens para mútua edificação e crescimento da fé.