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Solus Christus, nele estamos satisfeitos

Imagem: Christian Hilley

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5)

Quando dizemos que estamos satisfeitos em Cristo isto significa que de antemão estamos rejeitando qualquer outro meio de acesso a Deus. Para os cristãos de fé reformada, qualquer coisa que fique entre nós e Deus que não seja Jesus Cristo é um brutal pecado. Isto não significa que a tradição reformada ensine que possamos nos deleitar com artes plásticas, música, lazer ou que no campo da religião ele não possa se dedicar a teologia, aos princípios reguladores e o exame dos tratados confessionais. A diferença é que para a tradição reformada a boa consciência revela que Jesus, e somente ele dará plena satisfação quando nada mais puder ser deleitado.

O motivo para esta devoção de forma tão confessional está no fato de Cristo ter morrido, sendo punido por causa dos nossos pecados. Por isso que a palavra impiedade é tão elucidada nos sermões reformados. O ímpio é aquele que não recebeu o sangue de Cristo e está sob a ira de Deus (Romanos 1:18). Mas, a morte de Cristo na cruz aplaca esta ira.

Cristo é o Senhor

Esta é uma verdade que deve ser anunciada e vivida por aqueles que professam a Cristo como Senhor. Mas, se Cristo é suficiente para você e isto é algo de que você está convicto a pergunta que resta fazer é, Cristo é plenamente suficiente para mim. Se temos a Cristo como Senhor da vida eterna (Jo 14.6), ele também deve ser Senhor da vida terrena. Quando Paulo nos diz: ''portanto, vede prudentemente como andais ... remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Ef 5.15-16) temos que concluir que aqui reside a instrução para uma vida terrena, pois são os dias na terra que são maus.

Não é uma tarefa fácil andar conforme Cristo, mas não há outra solução, é Cristo ou Cristo. Também devemos estar consolados com o fato de que não depende dos nossos métodos ter uma vida debaixo do modelo de Cristo, mas devemos nos preocupar em seguir os conselhos de Deus deixados nas Escrituras para darmos razão de vivermos sob o modelo de Cristo. O Salmo 1 nos auxilia a entender o progresso de nossa vida terrena.

O salmista diz no versículo que somos bem-aventurados quando (1)não andamos no conselho dos ímpios (2)não nos detemos no caminho dos pecadores (3)não nos assentamos na roda dos escarnecedores. Acompanhado a isto, no versículo 2, nos é apresentado onde devemos nos aconselhar, nos deter e assentar - na LEI DO SENHOR. Jesus ao abordar os fariseus, como registrado em Jo 5.39, diz que as Escrituras testificam dele. Portanto é impossível caracterizar o cristianismo fora do Cristo apresentado nas Escrituras. Você pode buscar na cultura um modelo que produza nas vistas dos homens algum efeito parecido com o modelo de Cristo, mas será inútil. Devemos olhar firmes para o Autor e consumador da nossa fé, Jesus Cristo, o único modelo legítimo a ser seguido (Hb 12.2).

O senhorio de Jesus Cristo


Por Roberto do Amaral Silva

Justo C. Anderson fez uma importante afirmação do princípio do senhorio de Jesus Cristo: “O futuro da denominação batista dependerá em grande parte da sua fidelidade a este princípio”.[7] O senhorio de Jesus Cristo na vida cristã do indivíduo e na vida da igreja é determinante para a nossa continuidade como igreja. Nós vivemos numa sociedade na qual, usando a linguagem de Paulo, “há muitos deuses, e muitos senhores”,[8] exigindo a lealdade de cada um de nós e da igreja.

A quem devemos obediência? Em que assuntos devemos lealdade ao Estado, já que a própria Bíblia nos diz que “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores”.[9] Se partirmos do princípio de que o senhorio de Cristo é ponto final para decidir qualquer assunto, nossos atos alcançarão o resultado desejado por ele. Parafraseando Agostinho: “submeta-se a Cristo e faça o que você quiser”.

O princípio do senhorio de Jesus Cristo nos leva a responder a vários desafios. O primeiro deles é o totalitarismo político. Desde o domínio romano até o século XX, os cristãos experimentaram o domínio do Estado Totalitário exigindo-lhes a fidelidade que só é devida a Cristo. No Império Romano, os cristãos não sucumbiram à ordem de abandonar a fé pela submissão às exigências religiosas e políticas dos imperadores, mas os crentes pagaram com a própria vida ao pronunciarem e viverem a confissão de que “Jesus Cristo é o Senhor”. A definição radical pelo senhorio de Cristo acompanhou os cristãos durante a Idade Média frente aos poderes políticos e eclesiásticos.

A história da igreja no século XX também produziu mártires que, sob o domínio do nazifascismo e do regime comunista, não aceitaram a idolatria política das ideologias porque elas conflitavam com os ensinos de Cristo. Esses cristãos aprenderam com os apóstolos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”.[10] O senhorio de Jesus Cristo continua sendo a mola mestra na vida de cristãos em países islâmicos. Diante da oposição de familiares anticristãos e do Estado religioso opressor, muitos cristãos se rendem ao senhorio de Cristo.

Nós, batistas do Brasil e do ocidente, temos a proteção das leis que nos garantem a liberdade de culto e pregação do evangelho. Entretanto, há muitos “deuses” e “senhores” que tentam afastar-nos do senhorio de Jesus Cristo.

Por exemplo, há o senhor “eu” que exige plena submissão às suas vontades e caprichos conhecidos como obras da carne, que chamo de catálogo sinistro tirado de Gálatas 5.19-21, dividido em quatro blocos: 1) Sexo: imoralidade sexual, a impureza e as ações indecentes; 2) Religião: idolatria e feitiçaria; 3) Relacionamento interpessoal e social: inimizades, brigas, ciumeiras (ou ataques de ciúme), os acessos de raiva, a ambição egoísta, desunião, divisões (aquelas que põem irmão contra irmão nas igrejas), invejas; 4) Alimentação: bebedeiras e farras. Algumas versões dizem glutonaria ou orgias, tradução melhor para o termo usado no grego, komos, com o sentido de “excesso sensual no prazer físico e sexual que é ofensivo a Deus a aos homens igualmente”.[11] Ainda o mundo, ou mundanismo, com toda variedade de deuses como o amor ao dinheiro que, segundo Paulo, é a “raiz de todos os males” e que Jesus denominou de Mamom, palavra que personifica as riquezas. O Senhor Jesus deixou claro que “um escravo não pode servir a dois donos ao mesmo tempo, pois vai rejeitar um e preferir o outro; será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e também servir ao dinheiro”.[12]

Qual dos senhores ou deuses tem nossa obediência? Além da adoração a Mamom, que gera a sonegação de impostos (e dízimo, inclusive), a corrupção financeira em todos os segmentos sociais e governamentais e o consumismo desenfreado. Ainda há a deusa do sexo, a mais difundida e adorada sob várias divindades na forma de erotismo publicitário e televisivo, pornografia, homossexualismo, adultério e prostituição. Todos esses e mais outros soberanos, que não foram mencionados, fazem parte do esquema deste mundo, o qual não merece o nosso amor pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”.[13]

O princípio do senhorio de Jesus Cristo, portanto, nos leva a muitos desafios. Obedecer a quem em primeiro lugar? Até que ponto o cristão deve obediência à autoridade? Em que ponto do viver diário estamos obedecendo à nossa carne e a “senhores” deste mundo e a “deuses” e não a Jesus Cristo?

Talvez alguém pense que princípios batistas sejam afirmações filosóficas e teóricas que não têm nada a ver com nosso cotidiano cristão. Puro engano. No interessante texto elaborado, em 1964, pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, sob o tópico Cristo como Senhor, lemos o seguinte: “A fonte suprema da autoridade cristã é o Senhor Jesus Cristo. Sua soberania emana da eterna divindade e poder – como o unigênito Filho de Deus Supremo – de sua regência vicária e ressurreição vitoriosa. Sua autoridade é a expressão de amor justo, sabedoria infinita e santidade divina, e se aplica à totalidade da vida. Dela procedem a integridade do propósito cristão, o poder da dedicação cristã, a motivação da lealdade cristã. Ela exige a obediência aos mandamentos de Cristo, dedicação ao seu serviço, fidelidade ao seu reino e a máxima devoção à sua pessoa, como Senhor vivo”14 (grifo nosso).[14]
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[7] ANDERSON, Justo C. Historia de los bautistas – suas bases e princípios. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1978, p. 49. Tomo I.
[8] 1Coríntios 8:5.
[9] Romanos 13:1.
[10] Atos 5.29.
[11] BARCLAY, Willian. As obras da carne e o fruto do espírito. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 59.
[12] Mateus 6.24 (NTLH).
[13] 1 João 2:15.
[14]Princípios batistas. Rio de Janeiro: Juerp, 1987, p. 1.

Nota: Este é um extrato de Princípios e doutrinas batistas por Roberto do Amaral Silva, pg. 20-22