Declaração de Cambridge



Imagem: editado de Alliance of Confessing Evangelicals

Prefácio

A Declaração de Cambridge, que segue a este prefácio, e os oito trabalhos de apoio são os produtos da reunião histórica de 120 pastores, docentes e líderes evangélicos de organizações paraeclesiásticas realizada em Cambridge, Massachusetts, de 17 a 20 de abril de 1996. Acreditando que o movimento evangélico está em crise, essas pessoas se reuniram com a finalidade de convocar a igreja da América a se arrepender de seu mundanismo e buscar recuperar as doutrinas bíblicas apostólicas, porque só elas capacitam a igreja e proporcionam integridade para o seu testemunho. A reunião foi convocada pela Aliança de Evangélicos Confessionais.

(Boice, James M. e outros, “Reforma hoje: uma convocação feita pelos evangélicos confessionais”, Cambuci: Cultura Cristã, 1999, p. 5.)

20 de abril de 1996

As igrejas evangélicas hoje são cada vez mais dominadas pelo espírito desta época, e não pelo Espírito de Cristo. Como evangélicos, chamamos a nós mesmos a nos arrepender desse pecado e a recuperar a fé cristã histórica.

No curso da história, as palavras mudam. Em nossos dias, isso aconteceu com a palavra "evangélico". No passado, serviu como um vínculo de união entre os cristãos de uma grande diversidade de tradições da igreja. O evangelicalismo histórico era confessional. Abraçou as verdades essenciais do cristianismo, como aquelas definidas pelos grandes conselhos ecumênicos da igreja. Além disso, os evangélicos também compartilhavam uma herança comum nos "solas" da Reforma Protestante do século XVI.

Hoje a luz da Reforma foi significativamente reduzida. A conseqüência é que a palavra "evangélico" se tornou tão inclusiva que perdeu seu significado. Enfrentamos o perigo de perder a unidade que levou séculos para alcançar. Por causa dessa crise e por causa de nosso amor a Cristo, seu evangelho e sua igreja, esforçamo-nos por afirmar novamente nosso compromisso com as verdades centrais da Reforma e do evangelicalismo histórico. Afirmamos essas verdades não por causa de seu papel em nossas tradições, mas porque acreditamos que elas são centrais na Bíblia.

Sola Scriptura: A erosão da autoridade
Somente a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica hoje separou a Escritura de sua função autorizada. Na prática, a igreja é guiada, com demasiada frequência, pela cultura. Técnica terapêutica, estratégias de marketing e o ritmo do mundo do entretenimento geralmente têm muito mais a dizer sobre o que a igreja quer, como funciona e o que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciaram sua supervisão legítima de adoração, incluindo o conteúdo doutrinário da música. Como a autoridade bíblica foi abandonada na prática, como suas verdades desapareceram da consciência cristã e como suas doutrinas perderam sua saliência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e direção.

Em vez de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a lei como a única medida da verdadeira justiça e o evangelho como o único anúncio da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, educação e disciplina da igreja.

As escrituras devem nos levar além de nossas necessidades percebidas, para nossas reais necessidades e nos libertar de nos vermos através de imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura de massa. É somente à luz da verdade de Deus que nos entendemos corretamente e vemos a provisão de Deus para nossa necessidade. A Bíblia, portanto, deve ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões devem ser exposições da Bíblia e de seus ensinamentos, não expressões das opiniões do pregador ou das idéias da época. Não devemos nos contentar com nada menos do que Deus deu.

A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada das Escrituras. O Espírito não fala de maneira independente da Escritura. À parte as Escrituras, nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, ao invés de experiência espiritual, é o teste da verdade.

Tese Um: Sola Scriptura
Reafirmamos que a Escritura inerrante é a única fonte da revelação divina escrita, que por si só pode vincular a consciência. Somente a Bíblia ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser medido.
Negamos que qualquer credo, conselho ou indivíduo possa vincular a consciência de um cristão, que o Espírito Santo fale independentemente ou contrariamente ao que é estabelecido na Bíblia, ou que a experiência espiritual pessoal possa ser um veículo de revelação.

Solus Christus: A erosão da fé centrada em Cristo
À medida que a fé evangélica se torna secularizada, seus interesses são obscurecidos pelos da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, individualismo permissivo e uma substituição da santidade pela santidade, recuperação pelo arrependimento, intuição pela verdade, sentimento de crença, chance de providência e gratificação imediata pela esperança duradoura. Cristo e sua cruz se moveram do centro de nossa visão.

Tese Dois: Solus Christus
Reafirmamos que nossa salvação é realizada apenas pela obra mediadora do Cristo histórico. Somente sua vida sem pecado e expiação substitutiva são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.
Negamos que o evangelho seja pregado se a obra substitutiva de Cristo não for declarada e a fé em Cristo e sua obra não for solicitada.

Sola Gratia: A erosão do evangelho
A confiança injustificada na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Essa falsa confiança agora enche o mundo evangélico; do evangelho da auto-estima, ao evangelho da saúde e da riqueza, daqueles que transformaram o evangelho em um produto a ser vendido e pecadores em consumidores que desejam comprar, a outros que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso silencia a doutrina da justificação, independentemente dos compromissos oficiais de nossas igrejas. A graça de Deus em Cristo não é apenas necessária, mas é a única causa eficiente de salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e são incapazes até de cooperar com a graça regeneradora.

Tese Três: Sola Gratia
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus somente por Sua graça. É o trabalho sobrenatural do Espírito Santo que nos leva a Cristo, libertando-nos de nossa escravidão ao pecado e ressuscitando-nos da morte espiritual para a vida espiritual.
Negamos que a salvação seja, de algum modo, uma obra humana. Métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida por nossa natureza humana não regenerada.

Sola Fide: A erosão do artigo principal
A justificação é somente pela graça, somente pela fé, por causa somente de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja permanece ou cai. Hoje, este artigo é frequentemente ignorado, distorcido ou às vezes negado por líderes, estudiosos e pastores que afirmam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado ao reconhecer sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta enormemente os fogos desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Permitimos que esse descontentamento ditasse a natureza do nosso ministério e o que estamos pregando.

Muitos no movimento de crescimento da igreja acreditam que a compreensão sociológica dos que estão no banco é tão importante para o sucesso do evangelho quanto a verdade bíblica que é proclamada. Como resultado, as convicções teológicas são frequentemente divorciadas da obra do ministério. A orientação de marketing em muitas igrejas leva isso ainda mais longe, apagando a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando a cruz de Cristo de sua ofensa e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que trazem sucesso às empresas seculares.

Embora se possa acreditar na teologia da cruz, esses movimentos estão na verdade esvaziando-a de seu significado. Não há evangelho, exceto a substituição de Cristo em nosso lugar, pela qual Deus imputou a ele nosso pecado e imputou a nós sua justiça. Porque ele suportou nosso julgamento, agora andamos em Sua graça como aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não há base para nossa aceitação diante de Deus, exceto na obra salvadora de Cristo, não em nosso patriotismo, devoção religiosa ou decência moral. O evangelho declara o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que podemos fazer para alcançá-lo.

Tese Quatro: Sola Fide
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça, somente pela fé, por causa de Cristo. Na justificação, a justiça de Cristo é imputada a nós como a única satisfação possível da perfeita justiça de Deus.
Negamos que a justificação repouse em qualquer mérito encontrado em nós, ou com base em uma infusão da justiça de Cristo em nós, ou que uma instituição que afirma ser uma igreja que nega ou condena sola fide possa ser reconhecida como uma igreja legítima.

Soli Deo Gloria: A erosão da adoração centrada em Deus
Onde quer que a autoridade bíblica tenha sido perdida na igreja, Cristo foi deslocado, o evangelho foi distorcido ou a fé foi pervertida, sempre foi por uma razão: nossos interesses substituíram Deus e estamos fazendo sua obra à nossa maneira. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar a adoração em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, a crença em técnica, ser bom em nos sentirmos bem conosco e a fidelidade em ser bem-sucedida. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia passaram a significar muito pouco para nós e repousam inconsequentemente sobre nós.

Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, o apetite pelo consumo ou nossos próprios interesses espirituais. Devemos focar em Deus em nossa adoração, e não na satisfação de nossas necessidades pessoais. Deus é soberano na adoração; nós não somos. Nossa preocupação deve ser com o reino de Deus, não com nossos próprios impérios, popularidade ou sucesso.

Tese Cinco: Soli Deo Gloria
Reafirmamos que, porque a salvação é de Deus e foi realizada por Deus, é para a glória de Deus e que devemos sempre glorificá-lo. Devemos viver toda a nossa vida diante da face de Deus, sob a autoridade de Deus e somente para sua glória.
Negamos que possamos glorificar a Deus adequadamente se nossa adoração for confundida com entretenimento, se negligenciarmos a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se o auto-aperfeiçoamento, a auto-estima ou a auto-realização puderem se tornar alternativas ao evangelho.

Um Chamado ao Arrependimento e Reforma
A fidelidade da igreja evangélica no passado contrasta fortemente com sua infidelidade no presente. No início deste século, as igrejas evangélicas sustentaram um notável esforço missionário e construíram muitas instituições religiosas para servir à causa da verdade bíblica e ao reino de Cristo. Era uma época em que o comportamento e as expectativas cristãs eram marcadamente diferentes das da cultura. Hoje eles geralmente não são. O mundo evangélico hoje está perdendo sua fidelidade bíblica, bússola moral e zelo missionário.

Nos arrependemos de nosso mundanismo. Fomos influenciados pelos "evangelhos" de nossa cultura secular, que não são evangelhos. Nós enfraquecemos a igreja por nossa própria falta de sério arrependimento, nossa cegueira dos pecados em nós mesmos que vemos tão claramente nos outros e nosso imperdoável fracasso em contar adequadamente aos outros sobre a obra salvadora de Deus em Jesus Cristo.

Também chamamos sinceramente de volta os evangélicos professos que se desviaram da Palavra de Deus nos assuntos discutidos nesta Declaração. Isso inclui aqueles que declaram que há esperança de vida eterna à parte da fé explícita em Jesus Cristo, que afirmam que aqueles que rejeitarem a Cristo nesta vida serão aniquilados em vez de suportar o justo julgamento de Deus através do sofrimento eterno, ou que afirmam que os evangélicos e os católicos romanos são um em Jesus Cristo, mesmo onde a doutrina bíblica da justificação não é acreditada.

A Aliança dos Evangélicos Confessantes pede a todos os cristãos que considerem a implementação desta Declaração no culto, ministério, políticas, vida e evangelismo da igreja.

Pelo amor de Deus. Amém.

Esta declaração pode ser reproduzida sem permissão. Por favor, credite a fonte citando a Alliance of Confessing Evangelicals.
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Alliance of Confessing Evangelicals: http://www.alliancenet.org/cambridge-declaration

Introdução aos 5 Solas da Reforma Protestante


Por José Eduardo

Em síntese podemos afirmar que Cinco solas são frases latinas que definem princípios fundamentais da Reforma Protestante em contradição com os ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana. A palavra latina "sola" significa "somente" em português. Os cinco solas sintetizam os credos teológicos básicos dos reformadores, pilares os quais creram ser essenciais da vida e prática cristã. Todos os cinco implicitamente rejeitam ou se contrapõem aos ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana[1].

Por isso a Reforma Protestante é a reforma de muitas estruturas que se encontravam obscuras no século XVI. A iluminação sobre a verdade tem a capacidade de nos fazer ver o auge de muitas mentiras ou de muitas falsificações. Um artigo publicado pela emissora alemã "Deutsche Welle" intitulado "Matinho Lutero, o monge que revolucionou o mundo"[2] retrata bem a visão inicial até a progressão da reforma proposta por Martinho Lutero, o monge agostiniano de Wittenberg : "Martinho Lutero queria apenas discutir os problemas na Igreja Católica"[3]. Esta visão inicial se deu a sua visita a Roma: "Em 1510, Lutero foi enviado a Roma pela ordem agostiniana para tratar de negócios – uma viagem que marcou a sua vida. A Cúria enfrentava graves problemas financeiros devido à custosa construção da Basílica de São Pedro."[4]. O seu retorno o compeliu a questionar os pecados de usura, uma vez que a igreja mantinha os seus monges e clérigos sob votos de penitência como a pobreza, mas o agravante era como ele via a teologia da justificação da alma sendo aplicada em plena "capital" do catolicismo romano.

Entre 1510, onde seus primeiros questionamentos surgiram até 1517, no auge de suas convicções reformadoras, Lutero teve tempo de se preparar até elaborar suas 95 Teses. Em 1512 tornou-se doutor em teologia e um proeminente professor da Universidade de Wittemberg, onde o fez crescer em influência e conhecimento mais claro sobre as Escrituras, já com base em seus questionamentos. O Deutsche Welle descreve bem os pontos culminantes de sua formulação dogmática em contraste com o catolicismo romano e o que seria o "embrião" do que hoje conhecemos como os "5 Solas" ou "5 Somentes"

Os quatro pilares da fé de Lutero[5]

(Sola Scriptura) - Por meio de seu estudo da Bíblia, Lutero desenvolveu quatro princípios teológicos fundamentais. O primeiro é a Sagrada Escritura. Ele viu a Bíblia como a única referência da verdade, enquanto a Igreja na época também se baseava em textos adicionais escritos pelo papa e pelo sínodo.

(Sola Gratia) - O segundo princípio é o de que a salvação só vem por meio da graça de Deus e não por boas ações. Essa crença tornava a venda de indulgências obsoleta. 

(Solus Christus) - Em terceiro lugar, Lutero concluiu que Jesus Cristo, através de sua morte na cruz, pagou a pena por todos os pecados e é a única ponte entre os homens e Deus.

(Sola Fide) - E, finalmente, o quarto princípio: Lutero acreditava que as pessoas são salvas somente pela fé. "A vida cristã é inteiramente baseada na fé", afirmou. "Pela fé, Cristo vive em nós. Pela fé em Cristo, a justiça de Cristo se torna a nossa justiça, e o que é dele passa a ser nosso."

A raiz da teologia de Lutero

Com base não só de que viu em 1510, quando da fé do povo uma igreja tentava erguer um monumento a sua arrogante "estirpe" de igreja mor, Lutero não se enveredou pelo desespero nem ao embate, mas foi buscar na fonte. As Escrituras foi lhe dando as respostas, e pela fé, pois seu conflito de alma e intelecto não deveriam ser fáceis de lidar naquele momento. Logo Lutero embasou-se na autoridade final das Escrituras em matéria de toda fé, e na justificação somente pela fé.

O grande ápice dessa teologia

Tudo redunda especificamente em glória a Deus. Enquanto as importantes descobertas renascentistas e iluministas surgiam, um ego invadia os homens ao mesmo tempo. De um outro lado, além do empobrecimento econômico e intelectual ao redor dessa consciência eclesiástica vendida, existia o pior dos empobrecimentos, o da alma, sem o conhecimento de Deus. A reforma insistiu em reproduzir em cada região alcançada Catecismos onde a primeira pergunta era:

"Qual é o fim supremo e principal do homem?".  A resposta é: O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. (Rm 11:36; 1 Co 10:31; Sl 73:24-26; Jo 17:22-24)[5]

Com as quatro afirmações básicas, Sola Fide, Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia como alicerce de todo envolvimento com a transformação humana, o homem estava de fato retornando a glorificar a Deus na sua profissão de fé. Então, a quinta afirmação básica: "Soli Deo Gloria" torna-se concreta, porque ela afirma que o homem pecador, enfim regenerado pode adorar somente a Deus. Estes têm sido os pilares da fé dos evangélicos e a rejeição a qualquer desses pontos é o mesmo que por em risco a firmeza da nossa doutrina.

5 Solas
1. Sola Scriptura
2. Sola Fide
3. Solus Christus
4. Sola Gratia
5. Soli Deo Gloria
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[1]Cinco Solas: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_Solas
[2]Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha. Transmitimos uma imagem abrangente da Alemanha, relatamos eventos e desenvolvimentos, incorporamos perspectivas alemãs e outras de uma maneira jornalística independente. Ao fazer isso, promovemos o entendimento entre culturas e povos. Simultaneamente, também fornecemos acesso ao idioma alemão.
[3]Trecho do artigo "Matinho Lutero, o monge que revolucionou o mundo": https://www.dw.com/pt-br/martinho-lutero-o-monge-que-revolucionou-o-mundo/a-36213487
[4]Trecho do artigo
[5]Trecho do Artigo
[6]Pergunta número 1 do Catecismo Maior de Westminster

O senhorio de Jesus Cristo


Por Roberto do Amaral Silva

Justo C. Anderson fez uma importante afirmação do princípio do senhorio de Jesus Cristo: “O futuro da denominação batista dependerá em grande parte da sua fidelidade a este princípio”.[7] O senhorio de Jesus Cristo na vida cristã do indivíduo e na vida da igreja é determinante para a nossa continuidade como igreja. Nós vivemos numa sociedade na qual, usando a linguagem de Paulo, “há muitos deuses, e muitos senhores”,[8] exigindo a lealdade de cada um de nós e da igreja.

A quem devemos obediência? Em que assuntos devemos lealdade ao Estado, já que a própria Bíblia nos diz que “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores”.[9] Se partirmos do princípio de que o senhorio de Cristo é ponto final para decidir qualquer assunto, nossos atos alcançarão o resultado desejado por ele. Parafraseando Agostinho: “submeta-se a Cristo e faça o que você quiser”.

O princípio do senhorio de Jesus Cristo nos leva a responder a vários desafios. O primeiro deles é o totalitarismo político. Desde o domínio romano até o século XX, os cristãos experimentaram o domínio do Estado Totalitário exigindo-lhes a fidelidade que só é devida a Cristo. No Império Romano, os cristãos não sucumbiram à ordem de abandonar a fé pela submissão às exigências religiosas e políticas dos imperadores, mas os crentes pagaram com a própria vida ao pronunciarem e viverem a confissão de que “Jesus Cristo é o Senhor”. A definição radical pelo senhorio de Cristo acompanhou os cristãos durante a Idade Média frente aos poderes políticos e eclesiásticos.

A história da igreja no século XX também produziu mártires que, sob o domínio do nazifascismo e do regime comunista, não aceitaram a idolatria política das ideologias porque elas conflitavam com os ensinos de Cristo. Esses cristãos aprenderam com os apóstolos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”.[10] O senhorio de Jesus Cristo continua sendo a mola mestra na vida de cristãos em países islâmicos. Diante da oposição de familiares anticristãos e do Estado religioso opressor, muitos cristãos se rendem ao senhorio de Cristo.

Nós, batistas do Brasil e do ocidente, temos a proteção das leis que nos garantem a liberdade de culto e pregação do evangelho. Entretanto, há muitos “deuses” e “senhores” que tentam afastar-nos do senhorio de Jesus Cristo.

Por exemplo, há o senhor “eu” que exige plena submissão às suas vontades e caprichos conhecidos como obras da carne, que chamo de catálogo sinistro tirado de Gálatas 5.19-21, dividido em quatro blocos: 1) Sexo: imoralidade sexual, a impureza e as ações indecentes; 2) Religião: idolatria e feitiçaria; 3) Relacionamento interpessoal e social: inimizades, brigas, ciumeiras (ou ataques de ciúme), os acessos de raiva, a ambição egoísta, desunião, divisões (aquelas que põem irmão contra irmão nas igrejas), invejas; 4) Alimentação: bebedeiras e farras. Algumas versões dizem glutonaria ou orgias, tradução melhor para o termo usado no grego, komos, com o sentido de “excesso sensual no prazer físico e sexual que é ofensivo a Deus a aos homens igualmente”.[11] Ainda o mundo, ou mundanismo, com toda variedade de deuses como o amor ao dinheiro que, segundo Paulo, é a “raiz de todos os males” e que Jesus denominou de Mamom, palavra que personifica as riquezas. O Senhor Jesus deixou claro que “um escravo não pode servir a dois donos ao mesmo tempo, pois vai rejeitar um e preferir o outro; será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e também servir ao dinheiro”.[12]

Qual dos senhores ou deuses tem nossa obediência? Além da adoração a Mamom, que gera a sonegação de impostos (e dízimo, inclusive), a corrupção financeira em todos os segmentos sociais e governamentais e o consumismo desenfreado. Ainda há a deusa do sexo, a mais difundida e adorada sob várias divindades na forma de erotismo publicitário e televisivo, pornografia, homossexualismo, adultério e prostituição. Todos esses e mais outros soberanos, que não foram mencionados, fazem parte do esquema deste mundo, o qual não merece o nosso amor pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”.[13]

O princípio do senhorio de Jesus Cristo, portanto, nos leva a muitos desafios. Obedecer a quem em primeiro lugar? Até que ponto o cristão deve obediência à autoridade? Em que ponto do viver diário estamos obedecendo à nossa carne e a “senhores” deste mundo e a “deuses” e não a Jesus Cristo?

Talvez alguém pense que princípios batistas sejam afirmações filosóficas e teóricas que não têm nada a ver com nosso cotidiano cristão. Puro engano. No interessante texto elaborado, em 1964, pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, sob o tópico Cristo como Senhor, lemos o seguinte: “A fonte suprema da autoridade cristã é o Senhor Jesus Cristo. Sua soberania emana da eterna divindade e poder – como o unigênito Filho de Deus Supremo – de sua regência vicária e ressurreição vitoriosa. Sua autoridade é a expressão de amor justo, sabedoria infinita e santidade divina, e se aplica à totalidade da vida. Dela procedem a integridade do propósito cristão, o poder da dedicação cristã, a motivação da lealdade cristã. Ela exige a obediência aos mandamentos de Cristo, dedicação ao seu serviço, fidelidade ao seu reino e a máxima devoção à sua pessoa, como Senhor vivo”14 (grifo nosso).[14]
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[7] ANDERSON, Justo C. Historia de los bautistas – suas bases e princípios. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1978, p. 49. Tomo I.
[8] 1Coríntios 8:5.
[9] Romanos 13:1.
[10] Atos 5.29.
[11] BARCLAY, Willian. As obras da carne e o fruto do espírito. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 59.
[12] Mateus 6.24 (NTLH).
[13] 1 João 2:15.
[14]Princípios batistas. Rio de Janeiro: Juerp, 1987, p. 1.

Nota: Este é um extrato de Princípios e doutrinas batistas por Roberto do Amaral Silva, pg. 20-22

Introdução aos Princípios Batistas


Por Roberto do Amaral Silva*

O vocábulo princípio por si só já diz: o que é começo, o primeiro. Segundo Jaqueline Russ,[1] princípio, do ponto de vista temporal, é: começo, ponto de partida; do ponto de vista causal é a causa ou fonte de ação e, do ponto vista normativo, princípio é regra ou norma de ação. Com base nisso, podemos ver que princípio ou princípios nos trazem ideia de algo básico e fundamental. Podemos, inclusive, dizer que princípios determinam ponto de partida para uma ação. É até comum dizermos: “tenho por princípio peneirar toda informação que me é passada”. Ou então: “Fulano não tem princípios”, significando que não tem normas essenciais.

Segundo o dicionário Michaelis, princípios são “doutrinas fundamentais ou opiniões predominantes”. E o dicionário Houaiss define como “opiniões, convicções”. Na verdade, princípios são convicções que temos sobre alguma área de conhecimento ou ação. Todos nós possuímos princípios ou convicções que regem nosso modo de interagir com o mundo e com os outros. A grande questão é: que princípios são estes.

Ao passarmos para o terreno religioso, é comum se dizer: “tenho princípios religiosos” ou “tenho princípios bíblicos que dirigem minha vida”. Na Carta aos Hebreus encontramos registrada a expressão “os princípios elementares dos oráculos de Deus.”[2] No grego, “princípios elementares” é “stoikeia”, palavra que pode significar o abecê de um determinado conhecimento. E, mais adiante na epístola, há também a expressão “os princípios elementares da doutrina de Cristo”.[3] No original grego, “princípios” é “arkes”, significando “a compreensão inicial da posição cristã que a diferenciava do judaísmo”.[4] Logo, os dois textos fazem referência aos fundamentos iniciais da doutrina cristã que, segundo o autor, são: arrependimento de obras mortas, fé em Deus, batismos, imposição de mãos, ressurreição de mortos e juízo eterno. Esses ensinos da fé cristã eram “os princípios” que os cristãos, aos quais foi dirigida a Epístola aos Hebreus, deveriam conhecer, e que se diferenciavam dos ensinamentos do judaísmo, ao qual o cristianismo é superior.

E, agora, quando falamos de princípios batistas seriam eles a mesma coisa que doutrinas batistas? Embora os princípios batistas se baseiem nas páginas do Novo Testamento e se relacionem com as doutrinas e práticas cristãs, não são o que denominamos doutrinas batistas. O entendimento que temos é que princípios são convicções que norteiam nossa maneira de ler e interpretar a realidade que nos rodeia e como interagimos nela. Apesar de neotestamentários, os princípios batistas não abordam sistematicamente as doutrinas cristãs como estão devidamente expostas na “Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira”, documento que é a súmula do que nós, batistas, cremos por doutrinas bíblicas. Podemos exemplificar mostrando que o nosso entendimento sobre Deus na pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sobre o homem, o pecado e a salvação são doutrinas bíblicas comuns também a outras denominações evangélicas. Segundo Justo C. Anderson, os princípios batistas são “as pautas ou as normas sobre as quais os batistas têm baseado sua atividade orgânica e a raiz das quais têm justificado sua própria existência, ou seja, sua identidade denominacional”.[5]

Com base no que já vimos, podemos afirmar que os princípios batistas são um conjunto de convicções que definem o perfil das crenças e práticas batistas. Por isso, conforme John Landers, “os princípios batistas são linhas mestras de interpretação da fé cristã que distinguem os batistas das demais denominações”.[6] Sem o princípio da autoridade da Bíblia não há o testemunho de que Deus falou e se manifestou maravilhosamente na história humana. Não há o registro da intervenção divina a favor da nossa salvação. Se não há a autoridade das Escrituras, como declarar a competência do indivíduo em buscar, sob a ação e orientação do Espírito Santo, a verdade sobre Deus e sua relação com ele? Como o indivíduo se torna responsável diante de Deus?

A necessidade dos princípios batistas

Por que insistir tanto nos princípios batistas como elemento direcionador em relação a outros cristãos? Por que insistir nessa marca registrada dos batistas? Em primeiro lugar, historicamente os batistas têm-se distinguido, desde sua origem, por esses princípios. Segundo, porque diante da multiplicidade de igrejas (e como há novas igrejas aparecendo a cada semana nas esquinas das cidades brasileiras), nós precisamos firmar nossas convicções num todo coerente. Há muitas igrejas com rótulo de cristãs que, apesar de afirmarem ser a Bíblia a única regra de fé e prática, aceitam outras fontes de revelação que determinam suas crenças e práticas. Aqui temos um exemplo de como um princípio precisa interferir na nossa prática. Nossos princípios não devem ser aceitos apenas na teoria, mas devem ser postos em prática. Se nós cremos que Jesus Cristo é o Senhor da igreja, como agir seguindo outros senhores?

As igrejas batistas hoje, juntamente com seus líderes, precisam entender que o abandono dos nossos princípios diluem a nossa identidade. E se algum dos princípios se perder, os demais serão afetados. Nossos princípios básicos são um todo que se sustenta. Por isso precisam ser divulgados e estudados pelos crentes e, principalmente, postos em prática.

Na nossa abordagem dos princípios batistas, oito serão focalizados. Há autores que os enfocam de maneira diferente da que fazemos aqui. John Landers, por exemplo, acrescentou o princípio “O Espírito Santo em cada crente” no seu livro Teologia dos Princípios Batistas, fazendo frente ao ensino pentecostal do batismo no Espírito Santo como ato posterior à conversão.

Nós consideramos neste estudo os seguintes princípios batistas à luz das Escrituras e aplicados ao nosso dia-a-dia como indivíduos e como igrejas:

1. Princípio do senhorio de Cristo
2. Princípio da autoridade da Bíblia
3. Princípio da igreja composta de membros regenerados e biblicamente batizados
4. Princípio da igreja como comunidade local, democrática e autônoma
5. Princípio da igreja separada do Estado
6. Princípio da liberdade religiosa e de consciência
7. Princípio da competência do indivíduo e sua responsabilidade diante de Deus
8. Princípio da missão da igreja no mundo

*Roberto do Amaral Silva é pastor Batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Betel, Rio de Janeiro. O conteúdo deste artigo é um extrato de sua obra "Princípios e Doutrinas Batistas" publicado em 2003 pela JUERP. Sua obra completa está disponibilizada gratuitamente em PDF.
__________
[1] RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Editora Scipione, 1994.
[2] Hebreus 5.12.
[3] Ibid., 6.1.
[4] GUTHRIE, Donald. Hebreus, introdução e comentário, São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 129.
[5] ANDERSON, Justo C. Historia de los bautistas – (suas bases e princípios), El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, Tomo I. 1978, p. 44.
[6] LANDERS, John. Teologia dos princípios batistas., Rio de Janeiro: Juerp, 1986, p. 12.

Nota: Este é um extrato de Princípios e doutrinas batistas por Roberto do Amaral Silva, pg. 17-20

Download - Discografia do Eduardo Mano


O Eduardo Mano tem colaborado consideravelmente para que novas canções, com fundamentos bíblicos, possam nos ajudar de forma devocional, seja na vida pessoal ou congregacional. Creio que isto é um ponto fundamental para a saúde da igreja, pois assim como a pregação a música tem servido de comunicação na igreja, e se você é músico e trabalha na igreja com isso, aconselho que faça isso com o temor necessário, para o louvor daquele que nos chamou.

TRISTEZAS PASTORAIS


Por Léo Oliveira

Existem pessoas que acreditam que pastor não sente tristeza, que sempre estão felizes e alegres. Sério mesmo, de verdade! 

Assim como existem pessoas que acreditam, pelo fato deles cuidarem de coisas espirituais e viver sob a orientação de Deus, isso faz com que uma capa protetora venha sobre eles e lhes permitam viverem livres de quaisquer sentimentos comuns aos meros mortais (isso dá até um enredo de filme da Marvel)! 

Mas, desculpe-me te decepcionar: isso é um grande equívoco!

A Bíblia conta a história de Elias. Dizia que Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos (Tiago 5.17). Ou seja, pastores também sentem tristeza. Na verdade, existem lágrimas pastorais que igreja nenhuma jamais conheceu, pois são lágrimas que são derramadas no secreto com o Pastor dos pastores. E sem dúvida, lágrimas de tristeza.

Tristeza ao constatar que nem todos os membros de sua paróquia abraçam os sonhos que queima no coração: "Puxa, para que abraçar um sonho desse?!? Eu já tenho os meus e em nada são parecidos com esses!". Talvez pelo fato de não compreenderem que o relacionamento é essencial na vida da congregação. 

Alguns não participam porque acham que sabem tudo: "Para que ir aos domingos, terças, sábados…já ouvi tantas exposições, que não tenho nada mais a aprender.". 

Nem Sócrates pensava assim! No finalizando de sua vida ele disse que “tudo que sei é que nada sei!”. Essa atitude humilde é essencial para entendermos e aprendermos que cada vez mais precisamos aprendermos algo. E ninguém sabe tudo em nossas igrejas. Até as crianças tem algo a nos ensinar sabia?

O problema é a nossa arrogância! É triste verificar que muitos não vão aos cultos com a ideia de “aprender”. Vão por mero hábito, costume, cumprir uma agenda. Não vão com a disposição de partilhar suas vidas e tudo que tem aprendido. Acreditam que o pastor diz sempre a mesma coisa. Meros assistentes? Não participantes do culto? A Palavra de Deus cai em seus ouvidos como gotas de chuva nas penas de um pato: não penetra de forma alguma. Isso é triste demais!

Triste perceber que muitos crentes não crescem espiritualmente, preferem estar sempre como Peter Pan. São sempre os mesmos e não revelam nenhum desenvolvimento. Sempre as mesmas palavras, as mesmas ideias, os mesmos pensamentos, as mesmas reações, as mesmas dificuldades mas que optam em não romper com isso! Se tornaram marionetes que não veem os seus próprios barbantes. 

Infelizmente estacionaram. Ainda não experimentaram o crescimento que Paulo experimentou: “Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino” (I Coríntios 13.11).

Triste constatar que muitos crentes por qualquer probleminha ficam em casa, amargurados, magoados, aguardando a visita do pastor ou de alguém da igreja. Triste ver muitos crentes realizando a obra do Senhor sem responsabilidade, sem amor e sem constância. Sabem tudo da reforma, das solas mas não sabem nada sobre se arrepender dos seus maus caminhos, tomar sua cruz e seguir o Mestre.

Um dia ouvi de um pastor amigo meu que ovelhas são como o carrinho de mão: precisam ser empurrados. Outros são como o gatinho: só estão contentes e animados na igreja quando mimados. E ainda outros são como o nascer do sol: podemos sempre contar com eles para “um novo dia”. 

Engraçado lembrar disso escrevendo-nos do esse texto...

Acredito que os motivos aqui apresentados são suficientes para mostrar que pastor também sente tristeza. Talvez o que anima a cada um de nós pastores é saber que Jesus não escondeu sua tristeza. Ele disse: “A minha alma está profundamente triste... Fiquem aqui e vigiem comigo” (Mateus 26.38). E também saber que “O choro pode durar uma noite; mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30.5).

Paz & Bem.
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Léo Oliveira é Pastor em Encontro Gênesis Igreja Cristã

Análise de Obra de Brian Schwertley Sobre A Salmodia Exclusiva


Este artigo consiste em fazer uma análise do livro: SALMODIA EXCLUSIVA, UMA DEFESA BÍBLICA de BRIAN SCHWERTLEY

Antes de entrar no assunto propriamente dito quero ressaltar que de toda a leitura eu foquei especificamente no Capítulo 2 por um motivo simples. No primeiro momento, com a preocupação em aprender sobre tamanho assunto eu preferi me deter as afirmativas Bíblicas expostas no livro e o Capítulo 2 dá conteúdo suficiente para o que prendia examinar, preferindo então deixar minhas observações sobres os Distintivos como o Diretório Para o Culto em uma outra ocasião.

CAPÍTULO 2
DOS TÓPICOS 1 e 2
MANDAMENTO ESPECÍFICO e DESIGNADO POR DEUS PARA O CÂNTICO, pg. 11

O livro dos Salmos contém diversas ordens de louvor a Jeová com o cântico dos Salmos.

A) Celebrai com júbilo ao SENHOR, toda a terra; Bradai em cânticos, regozijai-vos e cantai louvores. Cantai ao SENHOR com a harpa; com a harpa e a voz de um salmo. Com trombetas e som de buzinas; Exultai perante a face do SENHOR, do Rei. (Salmo 98:4-6)

B) Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; Narrai a todos os seus assombrosos feitos! (Salmo 105:2)

C) Vinde, cantemos ao SENHOR! Saiamos perante a sua presença com ações de graças, celebremo-lo com salmos. (Salmo 95:1-2; cf. Salmos 81:1-2; 100:2).

SCHWERTLEY nos dois tópicos nos faz observar que além da inspiração das letras há uma designação para chefia do canto bem como da instrumentalização. Ou seja, não há uma parte sequer do hinário israelita em que Deus não esteja ordenando os detalhes.

DO TÓPICO 3
EXEMPLOS HISTÓRICOS, pg. 11

SCHWERTLEY evidencia que o cântico dos Salmos é tanto ordenado como devidamente praticado, dando assim uma evidência também histórica sobre a salmodia. O texto em defesa da salmodia exclusiva é 1 Crônicas 16, encontramos a ordem do canto do Salmo especificamente dos versículos 4 ao 7:

"4. E pôs alguns dos levitas por ministros perante a arca do Senhor; isto para recordarem, e louvarem, e celebrarem ao Senhor Deus de Israel.
5. Era Asafe, o chefe, e Zacarias o segundo depois dele; Jeiel, e Semiramote, e Jeiel, e Matitias, e Eliabe, e Benaia, e Obede-Edom, e Jeiel, com alaúdes e com harpas; e Asafe se fazia ouvir com címbalos; 
6. Também Benaia, e Jaaziel, os sacerdotes, continuamente tocavam trombetas, perante a arca da aliança de Deus.
7. Então naquele mesmo dia Davi, em primeiro lugar, deu o seguinte salmo para que, pelo ministério de Asafe e de seus irmãos, louvassem ao Senhor;" (1 Crônicas 16:4-7)

Notemos que o texto está tratando da solenidade da adoração israelita. Davi ordena a armação da tenda, prepara e faz os sacrifícios, torna o povo participante da solenidade repartindo os pães, pedaços de carne e taças de vinho e institui que os levitas deveriam salmodiar. Não podemos aqui sequer usar o argumento de que salmodiar, ou cantar Salmos refira-se a qualquer tipo de cântico. O versículo 8 prova que a ordem era de um Salmo em específico, o de número 105:

"8. Louvai ao Senhor, invocai o seu nome, fazei conhecidas as suas obras entre os povos." (1 Crônicas 16:8)

Agora o Salmo 105
"1. Louvai ao SENHOR, e invocai o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos." (Salmos 105:1)

Esta é a ordem estabelecida por Davi no versículo 7: "Então naquele mesmo dia Davi, em primeiro lugar, deu o seguinte salmo para que, pelo ministério de Asafe e de seus irmãos, louvassem ao Senhor"

Para mais evidências, SCHWERTLEY apresenta 2 Crônicas 5:13:

"13. E aconteceu que, quando eles uniformemente tocavam as trombetas, e cantavam, para fazerem ouvir uma só voz, bendizendo e louvando ao Senhor; e levantando eles a voz com trombetas, címbalos, e outros instrumentos musicais, e louvando ao Senhor, dizendo: Porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre, então a casa se encheu de uma nuvem, a saber, a casa do Senhor;" (2 Crônicas 5:13)

O Salmo entoado é o 100:5, em específico como está em 2 Crônicas 5:13:

"5. Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade dura de geração em geração." (Salmos 100:5)

O que se pode verificar na argumentação de BRIAN SCHWERTLEY em MANDAMENTO ESPECÍFICO, pg. 11, é de que não havia outro tipo de canção a ser entoada na solenidade israelita senão os próprios Salmos. Mas uma pergunta poderia ser feita sobre este MANDAMENTO ESPECÍFICO se voltássemos ao período de Moisés, onde a mesma solenidade ocorria. Que cântico era entoado na solenidade administrada pelos sacerdotes naquela época? A pergunta é justa, uma vez que o saltério bíblico é posterior a Moisés. A resposta merece também ser justa. Não há indícios de que se realizavam cânticos na solenidade. O que temos são relatos de cânticos isolados como forma de expressão aos livramentos e providências de Deus no período de perseguição de Faraó ao povo israelita. Este relato primário cântico fora da solenidade da adoração pode ser encontrado em Êxodo 15:1-19:

1. Cantarei ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro.
2. O Senhor é a minha força, e o meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu Deus, portanto lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei.
3. O Senhor é homem de guerra; o Senhor é o seu nome.
4. Lançou no mar os carros de Faraó e o seu exército; e os seus escolhidos príncipes afogaram-se no Mar Vermelho.
5. Os abismos os cobriram; desceram às profundezas como pedra.
6. A tua destra, ó Senhor, se tem glorificado em poder, a tua destra, ó Senhor, tem despedaçado o inimigo;
7. E com a grandeza da tua excelência derrubaste aos que se levantaram contra ti; enviaste o teu furor, que os consumiu como o restolho.
8. E com o sopro de tuas narinas amontoaram-se as águas, as correntes pararam como montão; os abismos coalharam-se no coração do mar.
9. O inimigo dizia: Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; fartar-se-á a minha alma deles, arrancarei a minha espada, a minha mão os destruirá.
10. Sopraste com o teu vento, o mar os cobriu; afundaram-se como chumbo em veementes águas.
11. Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, admirável em louvores, realizando maravilhas?
12. Estendeste a tua mão direita; a terra os tragou.
13. Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade.
14. Os povos o ouviram, eles estremeceram, uma dor apoderou-se dos habitantes da Filístia.
15. Então os príncipes de Edom se pasmaram; dos poderosos dos moabitas apoderou-se um tremor; derreteram-se todos os habitantes de Canaã.
16. Espanto e pavor caiu sobre eles; pela grandeza do teu braço emudeceram como pedra; até que o teu povo houvesse passado, ó Senhor, até que passasse este povo que adquiriste.
17 .Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da tua herança, no lugar que tu, ó Senhor, aparelhaste para a tua habitação, no santuário, ó Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.
18. O Senhor reinará eterna e perpetuamente;
19. Porque os cavalos de Faraó, com os seus carros e com os seus cavaleiros, entraram no mar, e o Senhor fez tornar as águas do mar sobre eles; mas os filhos de Israel passaram em seco pelo meio do mar." (Êxodo 15:1-19)

Mas, é importante destacar que este cântico de Moisés se tornaria inspiração para confecção de Salmos aludindo tais feitos de Deus, como são os casos a seguir:

"16. As águas te viram, ó Deus, as águas te viram, e tremeram; os abismos também se abalaram." (Salmos 77:16)

"1. Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó de um povo de língua estranha,
2. Judá foi seu santuário, e Israel seu domínio.
3. O mar viu isto, e fugiu; o Jordão voltou para trás." (Salmos 114:1-3)

Na ocasião em que o cântico foi entoado eles marcharam para uma espécie de beco sem saída, Migdol de um lado, Pi-Hairote, de outro e o Mar Vermelho à frente. E atrás deles podiam ver no horizonte as nuvens de poeira subindo dos carros que se aproximavam com o rei egípcio de coração duro e seu exército. Isto ocorreria em diversos momentos da história de Israel e os salmistas tiveram Moisés como um "embrião" do seu hinário.

DO TÓPICO 4 e 5
FIXADO NO CÂNON e O USO DE SOMENTE CANÇÕES INSPIRADAS, pg. 12

Os Salmos não estão dispostos no Cânon somente como um registro de fatos, mas, como bem investigado no tópico anterior, como um cântico solene com evidências históricas do seu uso. Até aqui tudo o que SCHWERTLEY quis mostrar é em síntese que, se as Escrituras canônicas são para exposição da doutrina, o cânon se estende a forma do canto solene com todas as diretrizes muito claras. E última análise sobre o tópico, se faz necessário lincar o cânon do Velho Testamento como texto inspirado para o uso não só do povo da Antiga Aliança como o da Nova Aliança já que Paulo lembra a seu discípulo Timóteo que:

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;" (2 Timóteo 3:16)

Ora, se ela é inspirada para um discípulo da Nova Aliança em toda sua estrutura canônica, ela deve ser PROVEITOSA em todos os termos já estabelecidos, seja para a doutrina, seja para o cântico.

DO TÓPICO 6
OS SALMOS E O CULTO APOSTÓLICO, pg. 16

Se dos tópicos 1 ao 4 SCHWERTLEY evidenciou o uso dos Salmos como cântico oficial e solene do povo da Antiga Aliança, o tópico 5 se entrelaça ao 6 na afirmativa de que os texto antigo é inspirado e PROVEITOSO para o seu povo na Nova Aliança. Então SCHWERTLEY propõe uma análise sóbria do que o Nov Testamento diz sobre o uso dos Salmos como cântico solene.

Um novo termo é utilizado no Novo Testamento, hino: "E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras." (Mateus 26:30). A palavra hino pode nos fazer pensar em qualquer cântico que não seja necessariamente um Salmo, pois o texto em sua completude não afirma uma só vez que um Salmo foi cantado. Mas, não por falta desta evidência explicita que nos esteja sendo dado o direito a dúvida. E por que digo isto. Porque o texto inteiro de Mateus 26 refere-se ao período solene da páscoa judaica.

Sou enfático em dizer que, todo o texto de Mateus 26 pressupõe que toda a tradição solene,  desde o primeiro dia dos pães asmos (Mateus 26:17) até que comecem a páscoa (Mateus 26:20-21) foi plenamente realizada como cumprimento da lei. A dúvida que paira sobre a mente de alguns sobre o termo hino em Mateus 26:30 é pode ser pelo simples desconhecimento da solenidade pascal. Eu mesmo desconhecia a plenitude da solenidade. Dentre todos os ritos inclui-se o cântico dos Salmos 113 ao 118. Estes são os chamados Salmos de “cântico de louvor e exaltação a Deus” (Hallel), cantado sempre ao final da ceia pascal. Não são poucas as notas sobre isto que estamos tratando aqui.

Tenho pensado com toda honestidade sobre a Salmodia após averiguar com calma Mateus 26. A tradição cristã tem preservado as ordens de comer e beber e hoje eu não entendo porque o uso do Salmo é negligenciado. Do ponto de vista mais amplo do que Jesus deixou como ordens, temos ainda o batismo, a pregação do evangelho o fazer discípulos. Mais a solenidade pascal tem três elementos uniformes, o pão, o vinho e o Salmo. E no fim Jesus diz: "fazei isto em memória de mim." (1 Coríntios 11:24-25).

Michael Bushell diz: "A salmodia e a Ceia do Senhor não são mais separáveis agora do que a salmodia e o ritual da páscoa o foram nos termos do Velho Testamento. Assim, não há nenhum exemplo na Escritura que mostre mais claramente do que este a significação permanente dos Salmos do Velho Testamento para a Igreja do Novo Testamento." (The Songs of Zion, pp. 78-79.)

Sinto-me satisfeito até aqui em expor minha análise não só a literatura de BRIAN SCHWERTLEY, mas sobre tudo o que as Escrituras afirmam sobre tamanho dever. Mas, por fim, ainda desejo salientar as seguintes palavras de SCHWERTLEY sobre o apelo de Paulo ao uso de Salmos, hinos e cânticos espirituais (Efésios 5:19 e Colossenses 3:16)

"o pensamento religioso e a cosmovisão do Apóstolo era essencialmente a mesma do Velho estamento e de Jesus Cristo, não a do paganismo grego. Portanto, quando Paulo discute doutrina ou adoração, o primeiro lugar onde devemos buscar auxílio para o entendimento dos termos religiosos é no Velho Testamento." (pg. 20)