Os Puritanos - Conceito, história e prática desses gigantes da fé

dezembro 08, 2015


Breve Introdução

O termo tem sido usado para estigmatizar pessoas severas, sem afeições amorosas ou retrogradas, mas isto é um engano. O puritanismo nos deixou um legado Bíblico, um fervor cristocêntrico e uma submissão a Deus. Vem da voz de um anglicano, aquilo que nos faz lembrar o que é ser um puritano. Este anglicano foi John Trapp, e disse ele: "Onde a Bíblia não tem voz, não devemos ter ouvidos."

Conceito e Histórico

O Puritanismo se destaca por ser um movimento em prol das Escrituras reafirmando-as como suficiente para instrução a piedade. O movimento ganha forma ao lutar por uma reforma completa da Igreja da Inglaterra no século XVI, no período de reinado de Elizabete I (1558). Cristãos ingleses neste período procuraram “purificar” a Igreja da Inglaterra, daí vem o termo puritano, um apelido criado para tentar diminuir o caráter e as intenções destes cristãos ingleses. Mas esta tebntativa de diminuição não funcionou. Quem não concorda que nossa busca pela pureza da igreja é o nosso dever? Neste sentido, se alguém nos chamar de puritanos porque insistimos na pureza, então isto para nós não é uma ofensa. Portanto, pensar no puritanismo é considerar que ele é uma expressão não só de mera purificação com o abandono de certos hábitos, mas também de buscar conhecer a vontade de Deus, da necessidade que temos de nos "amarrar" a Palavra de Deus para que nela tenhamos segurança real. Por isso os puritanos sempre trabalharam incessantemente na leitura doméstica das Escrituras, regulando a vida no Evangelho, o culto público modesto como uma forma de deixar sempre as vistas e aos ouvidos dos presentes a exposição da Bíblia, e o caráter dos crentes para testemunho das verdades Bíblicas e de Jesus Cristo.

As asseverações na Igreja Inglesa Protestante (anglicanismo) iam das indumentárias que os puritanos assim consideravam desnecessárias que remetiam a igreja aos exageros litúrgicos do catolicismo romano, além dos severos Seis Artigos, impostos por Henrique VIII (em 1539) com punições para os transgressores (“o açoite sangrento de seis cordas”), estes elementos foram profundamente combatidos pelos puritanos. Muitos foram martirizados neste período como: Hugh Latimer (em 1555), Nicholas Ridley (em 1555) e Thomas Cranmer (em 1556). Ainda outros elementos de culto como sinal da cruz em batismos e o ato de ajoelhar-se eram tidos como desnecessários, isto incluia ao gesto comum de se ajoelhar diante dos elementos da ceia. Estes pontos eram combatidos, pois sugeriam uma reverência a objetos de culto onde quem deve receber toda a nossa reverencia é Deus. Partindo deste principio, a modéstia do culto puritano apontava para poucas expressões, diferente dos costumeiros atos de levantar e sentar nas missas romanas e anglicanas, que se propunham a encucar nos fieis que isto representava um sinal de respeito a Deus, enquanto os puritanos declaravam que se fazia necessário uma inclinação de coração. Mas não subestimemos a simplicidade puritana do culto. A particularização do cântico dos Salmos em seus cultos demonstrava o zelo pela Escrituras. Seus sermões eram meticulosamente estudados pela família, o que isto nos leva a pensar o quanto cada cristão e cada família eram comprometidos com as Palavra de Deus. Estas são singularidades que os fizeram gigantes em seu tempo.

John Knox[1], um dos pais puritanos perseguidos, ao expor suas posições quanto a modéstia na adoração conclamou um dos solas da Reforma – sola scriptura. “Somente a Escritura deve ser o guia para a adoração. Todas as práticas e observâncias na igreja que não têm autoridade escriturística, devem ser abolidas.” Estas palavras de Knox deixa claro que o movimento buscava uma pureza objetivada naquilo que as Escrituras instruíam os crentes. Considerando que a ceia e o batismo são obras ordenadas para um fim de anunciar aos homens a morte e ressurreição do Cristo e a aclamação de indivíduos na igreja que Cristo comprou, escreve Rutherford[2]: “o que quer que nos faça perfeitos e perfeitamente habilitados para toda a boa obra, e essa é a finalidade para a qual foi escrito este trecho, que qualquer Timóteo, ou pastor fiel pode saber como deve proceder na Casa de Deus ... deve constituir uma base perfeita de disciplina, que não varia, sem fluxo e refluxo e sem alteração conforme o governo civil, as leis, os hábitos e os costumes dos homens. Mas as Escrituras de Deus assim instruem todos os membros da Igreja visível, tanto os governadores como os governados (2Tm.3:16,17, 2Tm.3.14,15)”.

O Perfil Puritano

Alderi Souza[3] apresenta dentro do movimento um perfil e características gerais dos puritanos:

Terminologia

Não-conformistas: esse termo surgiu na história inglesa quando puritanos e separatistas não quiseram aderir à Igreja da Inglaterra (oficial) desde 1660 até o Ato de Tolerância (1689). Não-conformidade é a atitude de não se submeter a uma igreja oficial.

Separatistas: termo aplicado ao puritano inglês Robert Browne (c.1550-1633) e seus seguidores, que se separaram da Igreja da Inglaterra. Mais tarde foi aplicado aos congregacionais ingleses e outros grupos que formaram suas próprias igrejas.

Não-separatistas: os puritanos anglicanos, aqueles que não queriam separar-se da igreja oficial, mas procuravam reformá-la. Os fundadores de Salem e Boston (1629-1630) estavam nessa categoria.
Independentes: nos séculos 17 e 18, os adeptos da forma de governo congregacional, em contraste com o governo episcopal da igreja estatal inglesa.

Dissidentes (“dissenters”): aqueles que se retiraram da igreja nacional da Inglaterra (anglicana) por motivos de consciência. O termo inclui congregacionais, presbiterianos e batistas.

Características gerais

Os “não-conformistas”, como também eram chamados, em geral eram ministros com educação universitária, oriundos principalmente de Cambridge, embora também houvesse leigos ardorosos entre eles.
Entendiam que a Igreja Inglesa devia adotar como modelo as igrejas reformadas do continente.

O puritanismo influenciou a tradição reformada no culto, governo eclesiástico, teologia, ética e espiritualidade. Quatro convicções básicas: (1) a salvação pessoal vem inteiramente de Deus; (2) a Bíblia constitui o guia indispensável para a vida; (3) a igreja deve refletir o ensino expresso das Escrituras; (4) a sociedade é um todo unificado.

O sentido original do termo “puritano” apontava para a purificação da igreja, isto estava óbvio à medida que os puritanos queriam descartar os elementos arquitetônicos, litúrgicos e cerimoniais que consideravam conflitantes com a simplicidade Bíblica. Por exemplo, eles objetavam o sinal da cruz no batismo e a genuflexão para receber a Santa Ceia.

Ao invés de paramentos elaborados (sobrepeliz), eles preferiam uma toga preta que simbolizava o caráter do ministro como um expositor da Bíblia no culto.

Queriam que cada paróquia tivesse um ministro residente capaz de pregar. Para alcançar esse objetivo, promoviam reuniões de ministros para ouvir sermões e receber orientação pastoral (suprimidas por Elizabete).

Sofrendo oposição dos bispos e estando comprometidos com uma eclesiologia que dava ênfase à igreja como uma comunidade pactuada, muitos puritanos rejeitaram o episcopado.

Thomas Cartwright promoveu o presbiterianismo (1570). Robert Browne, mais radical, advogou um sistema congregacional e defendeu a imediata separação da “corrupta” Igreja da Inglaterra (1582). Alguns de seus seguidores “separatistas” foram para a Holanda.

Congregacionais mais moderados, conhecidos como “independentes”, não chegaram a defender a separação. Eles influenciaram os puritanos da Baía de Massachusetts e se tornaram a corrente principal do congregacionalismo inglês.

Outros puritanos, como Richard Baxter (1691), queriam um “episcopado atenuado” que associava características presbiterianas e episcopais.

Os puritanos não estavam interessados somente na purificação do culto e do governo eclesiástico. Todo o corpo político também precisava de purificação. Apoiando-se em Martin Bucer e João Calvino, eles insistiram na criação de uma sociedade cristã disciplinada. Achavam que uma nação inteira podia fazer uma aliança com Deus para a realização desse ideal. Esperanças milenaristas e o exemplo do Israel bíblico os impeliram nessa direção.

O vigor do puritano na família, na Igreja e na sociedade

Ao ler sobre os puritanos não é difícil concluir que eles foram notáveis cristãos práticos. Sobre tudo, eles eram práticos no desenvolvimento de sua teologia na família. A forte aplicação da teologia do pacto e a responsabilidade dos pais na formação de seus filhos podem ser descrita na narrativa particular de Joel Beeke em seu livro Adoração no Lar.

“Pai, a lembrança mais remota que tenho é a de lágrimas escorrendo pelo seu rosto enquanto você nos ensinava sobre como o Espírito Santo guia os crentes, nas noites de domingo, quando usava o livro O Peregrino. Quando eu tinha três anos de idade, Deus o usou em nosso culto doméstico para me convencer que o cristianismo era verdadeiro. Não importa o quanto tenha me desviado nos últimos anos, nunca pude questionar seriamente a veracidade do cristianismo e quero lhe agradecer por isso”[4]

A rapidez com que estes irmãos praticavam a teologia na família pode ser observada na história. A forma como o presbiterianismo se desenvolveu na Escócia, que se deu em diversos processos, especialmente entre 1643 e 1712, nos dá sensação de que existia uma disposição vigorosa para o avanço da proclamação e as transformações sociais. Mas nada disto poderia estar longe dos arraias dos lares puritanos. Carlos I e Willian Laud, querendo impor a liturgia anglicana tiveram que lidar com um surpreendente crescimento dos puritanos na ocasião da convocação de eleições parlamentares. Para surpresa dos impositores o Parlamento era de maioria puritana. Este é um efeito social, não sendo somente um processo de evangelização nacional; o puritanismo brotava de suas próprias casas. O Rev. David Lipsy nos dá uma boa definição para esta questão:

“Para os puritanos, a ligação do matrimônio era considerada ‘a fonte e raiz principal e original de todas as outras sociedades’. Em outras palavras, se os casamentos não eram bons, como poderia a igreja ou a sociedade ser?”[5]

Com Carlos II não foi diferente. Se o seu pai, juntamente com Willian Laud queriam impor uma liturgia oficial, Carlos II desejava um sistema episcopal oficial. Então os puritanos e presbiterianos escoceses ergueram um pacto nacional que defenderia até a morte a autonomia da igreja da Escócia. No entanto, que se pode observar é que o relato pessoal de Joel Beeke sobre a vida devocional de sua família puritana é uma síntese do modelo de vida que deu vigor a todos os movimentos[6].

Alderi Souza nos deixa mais um relato que corrobora com a narrativa pessoal de Joel Beeke: “A ênfase prática da teologia puritana levou-a a dar grande atenção à ética pessoal e social em casos de consciência, discussões sobre vocação e o relacionamento entre a família, a igreja e a comunidade no propósito redentor de Deus.”[7]. Os puritanos acertadamente dava atenção a família e como isto poderia produzir um efeito social. Se desconsiderarmos este ponto crucial da vida puritana o puritanismo prático não tem qualquer sentido.

Infelizmente o puritanismo é caricaturado como um movimento de pessoas sisudas, legalistas e inflexíveis. talvez por conta de sua intrepidez teológica e social, seus inimigos , para os depreciar pintaram um quadro obscuro destes irmãos notáveis. Este quadro obscuro não pode vencer o efeito legítimo dos puritanos na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Holanda, Países Baixos e mesmo aqui no Brasil com a figura do Rev. Robert Kalley. O puritanismo não nasce somente pelo desejo de purificar a igreja, todo puritano legítimo deseja que sua família seja pura, que seus filhos temam a Deus. O crescimento relevante dos puritanos precisa ser associado ao ardente desejo de dizer que “eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15).
__________
[1]John Knox: Livro – “Sobre Liturgia e Adoração”, redigido por Rev. Daniel Klein – Editora Os Puritanos, pg. 2
[2] Ian Murray: Livro – “As Escrituras e as Questões Indiferentes – Um Problema Central na Controvérsia Puritana”, Editora Os Puritanos, pg. 24
[3] Alderi Souza: Artigo: “Puritanos e Assembléia de Westminster - OS PURITANOS: SUA ORIGEM E SUA HISTÓRIA, link: http://www.mackenzie.br/7058.html
[4] Joel Beeke, “Adoração no Lar”, editora Fiel, 2011, p. 9, 10
[5] Rev. David Lipsy, trecho de “A Mulher Puritana”, palestra proferida na “Conferência da Mulher – HNRC” no ano de 1998 pelo Pr. David Lipsy. Traduzido e publicado em português originalmente na ”Revista Os Puritanos” (Ano XII, nº 02:2004), republicado em Mulheres Piedosas com permissão do Projeto Os Puritanos e do autor.
[6] Alderi Souza de Matos, “História do Movimento Reformado, O PRESBITERIANISMO NA ESCÓCIA (2ª PARTE)”, Instituto Presbiteriano Makenzie, http://www.mackenzie.br/7015.html
[7] Alderi Souza de Matos, “História do Movimento Reformado, OS PURITANOS: SUA ORIGEM E SUA HISTÓRIA”, Instituto Presbiteriano Makenzie, http://www.mackenzie.br/7058.html

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1 comentários

  1. Oh quão afastada está essa geração de um relacionamento profundo com Deus como tiveram os puritanos!!
    Que Cristo nos ajude a observar exemplos como Knox, Spourgeon, John Wesley e tantos outros, para que possamos viver uma vida devocional mais profunda com Cristo, em Cristo e para Cristo!!

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